Terceira onda da Covid pode fazer Governo decretar lockdown no Ma

O sinal vermelho para Covid-19 no Maranhão está aceso. O secretário de Saúde, Carlos Lula, chegou a declarar nesta terça-feira (16), durante entrevista coletiva, que é muito provável que a nova variante do coronavírus já esteja no Brasil inteiro. A nova cepa seria a terceira onda da pandemia.

As restrições impostas pela Justiça para a não realização de eventos até a próxima quinta-feira (18); o decreto estadual cancelando as festividades carnavalescas; e a suspensão do ponto facultativo nos municípios maranhenses; parecem que não foram suficientes para frear o avanço da doença.

A taxa de ocupação dos leitos de UTI e de leitos clínicos exclusivos para a Covid-19 continuam subindo. Segundo o último boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde (SES), no dia 15 de fevereiro, 93,65% dos leitos de UTI estão ocupados na Grande Ilha; com apenas oito disponíveis.

Quase 50% dos leitos clínicos já estão ocupados. Em Imperatriz, segunda maior cidade do estado, a situação também é preocupante. Lá, 91,36% dos leitos clínicos estão ocupados, restando apenas sete. Com relação aos leitos de UTI, 78,13% estão preenchidos. O que significa dizer que dos 32 leitos de UTI disponíveis, apenas 7 estão disponíveis em Imperatriz.

Vale lembrar que houve uma alta nas taxas de ocupação dos leitos de UTI e clínicos nos boletins do dia 14 para o dia 15 de fevereiro. Em São Luís, o aumento foi de 90,48% para 93,65%, em relação aos leitos de UTI. Com relação aos novos casos, saltou de 154 para 213, um acréscimo de 38,31%. Essa alta foi registrada em apenas 24 horas. Dez óbitos foram notificados em cada informativo.

Com essa tendência de aumento, mesmo com a imposição de medidas restritivas, o Governo do Estado deve endurecer ainda mais e adotar medidas mais drásticas. Um novo lockdown pode ser decretado a qualquer momento para que o sistema de saúde não entre em colapso e milhares de vidas não sejam ceifadas. (Via Blog do Luis Pablo).

O Ibacazinho perde Dona Cici, sua Grande Mãe

Ela foi a mãezona do Ibacazinho. Qualquer dificuldade, seja problema de saúde ou mesmo questão de família, era a ela que todos recorriam. Ceciliana Furtado, ou simplesmente dona Cici, foi uma espécie de farol para a comunidade, luz redentora, numa época marcada pela falta de conhecimento e de tecnologia. Poucas pessoas conheci tão cheias de amor, e sei que fui um agraciado por tê-la como madrinha. Se me via, seus olhos se enchiam de felicidade. “Meu filho, que bom te ver. Quanta saudade!”. Ter-me à mesa era motivo de júbilo. “Senta, meu filho, nos dá a honra de tomar café conosco”. Sua partida abrupta para o plano celeste me deixou sem chão, e também sem palavras. Assim, reproduzo aqui a crônica que lhe fiz, anos atrás, para o livro A Fazenda Bacazinho, como última homenagem, e que dá uma ideia da sua dimensão para todos que tiveram o privilégio de conviver com ela.

Vai, madrinha, encher o céu de amor e ternura.

A MADRINHA CICI, UMA LENDA

Eu a conheci antes de me entender como gente. É até mais correto dizer que Ceciliana Furtado descobriu-me no ventre materno. Por decisão dos meus pais, que chancelei anos mais tarde, levou-me à pia batismal e me fez ingressar na vida cristã. Fazia parte de uma comunidade ainda tribal, marcada pelo querosene e hábitos primitivos. Parecia estar situada muito além do seu tempo. E isso a tornava especial, espécie de luz condutora.

No entanto, o que mais nela me chamava a atenção era a voz suave, um tanto sonora, em ritmo compassado, quase soprada. Aquilo era música para os ouvidos, herança que ela passou às filhas, todas exibindo a mesma tonalidade e o mesmo tempo marcado na fala. Era bonita. Da alma brotava um carisma que a destacava onde estivesse. Tinha o dom da clarividência, que lhe permitia antever situações, muito além do olhar comum.

Situava-se, assim, no vértice da comunidade, aquele ponto para onde convergiam as queixas, as dúvidas e as aflições coletivas. Certo dia meu pai caiu gravemente enfermo. A mão ficou vermelha. Inchou rápido. Febre de doer. Corremos a ela, que nos atendeu solícita. Acercou-se da rede, inspecionou o doente. Depois chamou a família, fez um relato sombrio.

Em Viana, sede do município, distante 4 Km do Ibacazinho, havia nessa época um grupo de missionárias canadenses, que prestavam serviços de saúde para a igreja católica. Não perdeu tempo. A bordo de um velho jipe, ela e o marido, Sebastião, foram até a cidade e trouxeram a missão para ver o meu pai. O diagnóstico foi aterrador: gangrena.

Nessa época ninguém sabia o que era isso. Mas pelo ar circunspecto das missionárias e as orientações passadas à família, o caso era gravíssimo, e o desenlace se daria em questão de dias ou de horas. Contra todos os prognósticos meu pai enfrentou a doença e a venceu, mesmo sob a luz de lamparina, e tendo que amputar um braço. Ficaria grato à comadre pelo resto da vida.

Às vezes, mesmo tendo o respeito quase religioso do vilarejo, entrava em conflito com os moradores, que não entendiam o alcance de sua visão e de suas atitudes. A miséria grassava no povoado. Muita gente morria à míngua, vitimada por doenças hoje consideradas simples como verminose, sarampo, diarreia. A madrinha sabia que parte daquelas enfermidades era levada para o organismo humano pela água.

Esperou a data consagrada às mães, organizou uma campanha de doação, escolheu a mãe mais necessitada do lugar e a ela decidiu entregar um filtro. No lar escolhido, as crianças padeciam com um tipo de verme que provocava inchaço no corpo e fazia crescer a barriga. O Ibacazinho era uma comunidade quase que de sangre único, em que primos se casavam com primas, numa espécie de regra tácita.

Ao saberem da ideia da madrinha de entregar um filtro à mãe mais carente, os moradores tomaram aquilo como afronta. Achavam que, longe de beneficiar, a iniciativa feria todas as famílias naquilo que consideravam uma questão de honra: a dignidade. No dia da entrega do apetrecho, o tempo fechou, e foi um escarcéu do diabo.

Uma tia, após ouvir o belo discurso da madrinha sobre solidariedade humana e saúde pública, levantou-se de uma cadeira na fila da frente e, dedo em riste, a baba do fumo de rolo escorrendo pelos cantos da boca, advertiu: “Minha família é pobre, mas é gente honesta. Não pense que a senhora vai nos humilhar com esmolas. Isto nós não vamos aceitar de jeito nenhum”.

Entre perplexa e indignada, ouviu aquele rosário de reclamações e ameaças. Depois se armou de coragem, enfrentou o protesto com altivez, rechaçou todos os argumentos e no final, vitoriosa, entregou o filtro à mãe escolhida, que o recebeu com um misto de alívio e agradecimento.

Era também a professora do lugar. Graças a ela o Projeto João de Barros se assentou no Ibacazinho, abrindo oportunidade a muitos de ingressarem no universo das letras. Aluno seu, me envolvi numa briga com colega de aula. O sujeito a quem enfrentei tinha o dobro da minha idade. Como era previsível, apanhei impiedosamente. Depois, sangrando, com as vestes rasgadas, fui levado à presença da temida palmatória. Tomei meia dúzia de bolos, que me deixaram as mãos em brasa. Em casa meu pai, já sabendo da arruaça, me esperava de talo de tamarindo em punho para mais uma sessão de corretivo. A sova ficaria gravada para sempre.

Outra vez, aproveitando a ausência dos padrinhos, eu e primos fomos a casa deles, para jogar conversa fora com suas filhas e outras meninas da redondeza. O papo corria divertido, quando, de surpresa, os donos da casa irromperam na cozinha, onde nos encontrávamos. Bazinho, único filho homem e ainda menino, que não tinha papas na língua, foi logo anunciando: “papai, mamãe, eles estão conversando só indecências”. O tempo parou. Como que petrificado, saí à francesa, sem dizer palavra.

No dia seguinte, me acolheu e absorveu do seu jeito mais carinhoso. Antes que inventasse qualquer coisa para sair daquele nó, tomou a palavra e disse: “Meu filho, eu acredito em ti. És um menino bom, ajuizado e bem criado. Sei que jamais faria qualquer coisa que me decepcionasse”. Foi como ascender do inferno ao paraíso. Voltei para casa com cara de anjo, mesmo sabendo que no íntimo eu estava muito mais para demônio.

Os anos se passaram. Tornei-me homem. Nunca mais a vi. Jornalista feito, um dia folheava uma publicação numa banca de revistas da praça Benedito Leite, em São Luís. Distraído, nem percebi a aproximação de um casal de senhores. Quando, porém, uma mão macia tocou-me os ombros e ouvi aquela voz suave, me chamando de “meu filho”, reconheci-a sem precisar encará-la. Trazia no semblante as marcas do tempo. Nos olhos, a mesma doçura. No sorriso, a beleza de sempre. Na voz, o encanto com que sempre me acolheu.

Depois partiram. Ela e o padrinho. De mãos dadas. E fiquei ali, parado, vendo-os se afastando, até sumirem na esquina. A lembrança da lei de atração entre os espíritos tomou-me de assalto. E fiquei ali a pensar, em como os dois se fundem e se completam. Se a tese da pluralidade de existência da alma estiver correta, nem a morte os separará. Porque de fato foram marcados para viver juntos. Minha mãe, que os viu adolescentes, diz, em linguagem figurada, que eles se conheceram num dia, namoraram no outro e no dia seguinte casaram-se. Era pra ser. Estava escrito.

Por Nonato Reis

Levou o dedo na boca do peixe e gritou: “piranha!”

Arquivo Google

Nonato Reis*

A língua é um dos elementos fundamentais da identidade cultural de um povo. Por meio dela se dá a construção da subjetividade, garantindo-se a transmissão de conhecimento entre as gerações, num processo contínuo e dinâmico. O modo de falar, a sonoridade, o sotaque indicam a procedência e as raízes ancestrais, mostram como as influências externas foram absorvidas ao longo do tempo.

A Baixada Ocidental, por exemplo, tem um padrão de linguagem que a distingue das demais regiões do Estado e de qualquer outra parte do Planeta. Existe até um livro intitulado “Dicionário do Baixadês”, lançado em 2014, pelo professor Flávio Braga, que apresenta uma compilação de termos, expressões e provérbios populares da região.

São centenas de verbetes sobre a forma de comunicação do caboclo baixadeiro, cuja origem remete às culturas europeia, africana e nativa, miscigenadas em razão do processo catequético e da escravatura.

Termos como arroz pache, que significa o arroz cozido com excesso de água; bazugar – arremessar, jogar, lançar; casêra – mulher que mantém relacionamento com homem casado; estalecido – dente inflamado; gatimonha – brincadeira espirituosa, que provoca gracejos, gaiatice; indêz – o ovo que se coloca no ninho para servir de chamariz às galinhas, e por aí vai.

No Ibacazinho, esses termos faziam parte do vocabulário da comunidade, e qualquer palavra usada fora do padrão soava estranha, para dizer o mínimo. Como explicar para o morador das brenhas que ele está com um problema no pâncreas e não na passarinha? É curto-circuito na certa na comunicação.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com um rapaz que, tendo passado um tempo estudando em São Luís, voltou para a comunidade, falando um português esquisito. Um dia a mãe adoeceu com um tumor no traseiro, e a família achou por bem procurar “recurso” na cidade.

O rapaz, então, chamou a irmã e o pai e os orientou a procurar o seu Ozimo, famoso farmacêutico da década de 70, em Viana. Disse: “vocês digam a ele que ela tem um tumor nas nádegas”. E soletrou com todo o cuidado, para que não houvesse erro: ‘ná-de-gas’”.

Estando diante do seu Ozimo, o pai, com a filha do lado, explicou que a esposa estava com um “carbunco” e precisava de um remédio.

Seu Ozimo quis saber a localização do tal carbunco. O homem coçou a cabeça e não conseguia lembrar o nome que o filho havia falado. Então, já agoniado, pediu ajuda à menina: “Minha filha, como é o apelido do cu da tua mãe?”.

Houve também o caso de uma garota que foi passar férias no Rio de Janeiro e voltou chiando que nem carioca. Esquecera os hábitos da comunidade, sequer conseguia identificar os peixes do rio Maracu.

Ela olhou uma piranha que o primo Tião Xoxota havia pescado e quis saber que peixe era aquele. Tião, tido como de pavio curto, achou aquilo um deboche. “Tu passou um mês na capital e não sabe mais que peixe é esse?”. A menina jurou que não sabia. “Pois deixa que eu te ajudo a lembrar”.

Então mandou-a fechar os olhos e, com a mão sobre o dedo direito indicador dela, levou-o até a boca da piranha, que o mordeu, retirando uma lasca de carne. A menina gemeu de dor e, o sangue jorrando do dedo, gritou: “piranha!”. E Tião, com ar de superioridade: “Eu não disse que você lembrava?”

Integra o livro “Os Sinos da Matriz”, com lançamento previsto para este ano.

*Nonato Reis – Jornalista | Escritor