Pacto para depois da morte

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Por Nonato Reis*

Nos outros lugares eu não sei dizer, mas em Viana, terra onde nasci e morei até os 15 anos, cultua-se um estranho hábito de fazer promessas de retorno do além-túmulo. Quando vivas, as pessoas selam pacto de voltar para dar testemunho de que, de alguma forma, sobreviveram à morte e em algum lugar, ou plano do universo, continuam existindo.

Creio que esse ritual acabou passando de geração a geração, pela farta literatura oral que se criou sobre casos de aparição.

Só que esse negócio de lidar com espírito nem sempre acaba bem. Cresci ouvindo minha mãe dizer que com defunto não se brinca, ela própria então um gato (ou gata) escaldado (a). Quando menina, lá pelos 13 anos, fora ao enterro de uma amiga que tivera morte súbita. Na hora de preparar a mortalha, o caixão ficou menor do que o corpo e tiveram que retirar o suporte de uma das extremidades, para acomodar a defunta dentro da urna.

Dona Eulina, ao ver aquilo, apontou para as colegas a estranha cena da defunta com os pés para fora do caixão, no que foi alertada por uma delas para não brincar com mortos, porque eles costumavam retornar à noite para acertar as contas com os vivos.

Na hora de dormir, a lamparina já apagada, Dona Eulina penteava os cabelos com os dedos, o pensamento distante, quando teve a atenção despertada para um leve ruído na porta de palha de babaçu, que guarnecia os fundos da casa, próximo ao Cemitério dos Anjos, o mesmo que, anos depois, receberia os restos mortais de Linda, a protagonista de A Saga de Amaralinda.

Na mesma hora lembrou-se da defunta e o corpo dela virou estátua. A coisa veio se aproximando, lentamente, no que acompanhava pelo atrito das tamancas com o solo – o mesmo calçado com que fora enterrada. Chegou-se rente ao ouvido dela e começou o falatório, enrolado e estridente, cujo ar gélido parecia penetrar as entranhas do cérebro. Minha mãe apenas conseguiu entender as palavras finais da falecida, ao avisar: “eu já vou embora, e não te esquece que meus pés estão do lado de fora”.

Outra situação complicada viveu Pau Ferro (um sujeito que não acreditava em Deus e muito menos nesse negócio de morto voltar ao mundo dos vivos). Foi com Alvinho, seu parceiro de ofício na arte de costurar roupa.

De tanto tentar convencer o amigo de que defunto volta sim, Alvinho decidiu selar um pacto de morte com Pau Ferro. Quem morresse primeiro teria que vir dar sinal de “vida” para o outro.

Anos depois, Alvinho se mudara para o Pará e Pau Ferro nem mais se lembrava dele. Foi quando um belo dia, lá pelas duas da tarde, Pau Ferro já debaixo de seus 90 anos, lutando com a velha máquina Singer, alguém bateu na janela, às suas costas, e bradou: “volta ou não volta, Pau Ferro?”, ao que ele respondeu com o pensamento, sem pestanejar: “vorta!”.

Pode acontecer também do pacto não se cumprir. Foi o que aconteceu com o acerto selado entre meu primo Rui e a nossa tia-avó Eponina, que chamávamos de Punina. No dia em que ela morreu e nas noites seguintes Rui dormiu sozinho em um casebre na tapera mal-assombrada de Maria Fernandes, à espera de que a falecida viesse cumprir a promessa. Em vão. Nem sinal dela.

Eu é que a vi em nossa casa, dias depois, imersa numa nuvem vaporosa, projetando-se sobre um velho candeeiro, que iluminava o local onde morrera, e o apagando.

Aos 16 anos eu morava em São Luís e estudava no colégio Gonçalves Dias. Havia uma menina de nome Julieny, baixinha, morena, corpo perfeito, olhos arredondados e céticos, que era um assombro como aluna. Tirava 10 em todas as disciplinas, exceto Português e Redação, matérias que eu dominava com facilidade.

Julieny, que não admitia uma nota menor do que a máxima, foi até mim e propôs: me ensinava Física e Matemática – meu calcanhar de Aquiles – e eu a orientava sobre como aprender análise sintática e escrever com clareza.

Acabamos amigos. Mas Julieny tinha um problema sério: igual Pau Ferro, era ateia convicta, só acreditava nas coisas tangíveis deste mundo. Isso fazia com que, vira e mexe, nos víssemos enredados em ácidas discussões sobre o plano espiritual.

No final das contas, sem uma saída consensual, caímos na velha armadilha do pacto pós-morte. Algum tempo depois, já fora do GD, eu me arrependi da graça e quis desfazer o acordo. Só que já era tarde, porque perdera o contato com ela, por completo.

Aquilo começou a me perturbar o juízo, e assumiu ares de dramaticidade, quando em sonho fora comunicado da morte de Julieny, pela própria, que cumpria assim o combinado.

Um dia caminhava pela praia do Olho d’Água apinhada de gente, quando de repente dei com aquela garota moreninha, só de biquíni, sorrindo pra mim, com as mãos nos quadris. Lívido de medo, tratei de correr, no que ela correu também em minha direção.

Na fuga, esbarrei num casal de namorados e me estatelei no chão, ofegante. Ela então acercou-se de mim e, entre risos e ar de surpresa, falou-me. “Nonato, o que deu em ti? Parece que viu defunto!”.

*Jornalista | Escritor

Residencial Frei Serafim: um retrato de como trabalha a Prefeitura de Viana

O Residencial Frei Serafim, em Viana, é um dos mais emblemáticos exemplos de como funciona a administração Magrado Barros (DEM). O conjunto habitacional  foi uma luta do ex-prefeito Chico Gomes, que adquiriu recursos junto à Caixa Econômica Federal, no Programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal, para que a obra fosse executada.

Ano passado, Magrado fez autopromoção, mentindo que o residencial era uma conquista de sua gestão. Além de querer ser “o pai da criança”, anunciando obra alheia como se fosse sua, o prefeito Magrado tem deixado o local quase órfão de serviços públicos. Os problemas de falta d’água já fazem parte da rotina do lugar.

Em abril deste ano, houve um tumulto no local, com protesto dos moradores porque a Prefeitura não resolveu o problema da bomba d’água. Muitos tiverem chegaram ao cúmulo de “comprar” água para fazer suas atividades domésticas.

Nos últimos dias, os moradores do Frei Serafim estão enfrentando novamente problemas causados pelo “modelo” de administração que nunca consegue resolver, por definitivo, nada em Viana. O professor Mauro, morador da quadra 25, denunciou: “Tivemos a situação essa semana da falta d’água que continua. Agora, o governo deixa a gente com o lixo na porta, eles não dão nenhuma satisfação. Eles vêm o dia que bem querem, a gente não tem coleta de lixo regular, eles vêm ao bel prazer deles”.

“Não sei até onde vai a incompetência do prefeito municipal MAUgrado Barros. Quando não é a falta de água no Residencial Frei Serafim é o recolhimento do lixo que não existe ou não tem dia específico. Já estamos a duas semana sem ver a coleta que deveria ser regular (…) Estamos nas mãos de Deus”, escreveu em uma rede social o vianense Mauro Mikaelson.

Neste 2020 de eleições municipais, tudo indica que o Residencial Frei Serafim de Viana será um dos locais com maior rejeição à reeleição do prefeito Magrado. Como no ditado da caça, um dia do peixe e outro do pescador.