Viana – Hoje o boi pega fogo!

Em Viana, uma tradição singular do Bumba-boi resiste por mais de um século

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Hoje, 28 de junho, é o dia mais agitado da temporada junina, em Viana, na Baixada Maranhense. É a tão aguardada apresentação do BOI PASSA-FOGO, brincadeira secular, única no Maranhão, e que atrai centenas de turistas e visitantes à Cidade dos Lagos.

A brincadeira, agora, está sob comando do jovem Júnior Oliveira, filho do folclorista Zé de Betrone, que faleceu este ano e era o amo do boi. Segundo Oliveira, presidente da Associação Folclórica Boi Passa Fogo, a troupe sairá a partir das 12h, da concentração, em frente à Escola Municipal Pituchinha. Não serão permitidos artefatos pesados, como bombas de pavio ou outro explosivo que coloque em risco a integridade dos brincantes.

O novilho já está pronto para enfrentar seus algozes, hoje à noite

Segundo ele, a Polícia Militar se fará presente para fiscalizar e garantir a apresentação conforme a tradição.

Leia abaixo artigo correlato sobre o Boi Passa-Fogo.

BUMBA-MEU-BOI SOB FOGO CRUZADO

Luiz Alexandre Raposo*

É na noite de 28 de junho, véspera de São Pedro, que a cidade de Viana se torna palco de um inusitado e interessante espetáculo, envolvendo a figura do animal tão festejado no mês. Conhecida pela população local como “passar fogo no boi”, a farra anual consiste em fazer chover uma verdadeira torrente de fogos sobre o dorso do animal, enquanto todos dançam sob o ritmo frenético das matracas.

Não se sabe ao certo a origem da brincadeira. Difícil também definir quando tudo começou. Os registros mais antigos sobre essa tradição do Bumba-boi vianense remontam ao início do século passado. O médico e escritor Salvio Mendonça (1892-1970), no livro de memórias “História de um Menino Pobre,” assim se refere a essa peculiaridade folclórica de sua terra natal:

“Em Viana, o Bumba-meu-boi tinha outro apreço, era a passagem do boi pelo Canto Grande, entre saraivada de busca-pés, foguetes, carretilhas e bombas, de fabricação do velho Rocha. O boi mais famoso de Viana era o do Valentim. Eram feitas as apostas para a passagem do boi pelo Canto Grande, cruzamento das Ruas Grande e Padre Hemetério. O valor da aposta era um barril de cachaça. O boi vinha completamente molhado para resistir ao fogo. Os negros, também molhados, vinham descalços, para facilidade nos pulos. Os rapazes se ajuntavam nas esquinas, municiados, e quando o boi do Valentim chegava ao Canto Grande, era cercado pela frente, retaguarda e lados, entre o estrondar das bombas, foguetes, busca-pés e carretilhas, o que constituía bombardeio de muitas horas. Se o grupo do bumba-meu-boi resistia até se esgotarem os fogos, levava o barril de cachaça. No fim da brincadeira, ficava sempre queimado algum dos batalhadores.”

Travassos Furtado (1912-1990), outro famoso memorialista vianense, também descreve o pitoresco folguedo que tanto encantou sua juventude.

“Após percorrer grande parte da cidade, dançando à porta dos homens de maior projeção de Viana, o boi se prepara, agora, para descer a Rua Grande, a fim de aceitar o desafio dos lançadores de fogos. Antes, porém, retiram-lhe o rico lombo, e assim todo encharcado de água, inicia a caminhada em direção a um trecho estreito daquela rua, entre o chamado Canto Grande e a pequena praça do antigo mercado. Já a essa altura a turma do fogo estava preparada, aguardando apenas o momento de entrar em ação.

Começa, então, a travessia perigosa. Protegido por homens corajosos, que se lançam à frente, aos gritos estridentes, o boi desce vagarosamente, entrando aos poucos, na zona de fogo. E a grande batalha tem início, sob a expectativa da população.

Espetáculo impressionante. Uma chuva de foguetes, carretilhas e busca-pés, com estouros aterradores, cai sobre os brincantes, partindo de todos os lados. O boi e os vaqueiros ficam durante alguns minutos dentro de um verdadeiro círculo de fogo. A luta dura, às vezes, mais de uma hora, e só termina, realmente, quando se esgota a munição. Mas a vitória pertence, quase sempre, ao boi.”

Com o passar dos anos, a brincadeira trocou o antigo Canto Grande por um trecho estratégico da Rua Dom Hamleto de Angelis. Antes, porém, há uma concentração na Praça de São Benedito, marcada para as 20 horas. À meia-noite, seguido por extensa fileira humana, o boi deixa a praça para descer a Rua Grande. No ponto de estrangulamento já o aguarda grande multidão, ansiosa por começar a batalha de bombas, estrepa-moleques, besouros e carretilhas (os busca-pés foram proibidos). São quase três horas de queima de fogos, estouros e muita fumaceira.

Por sua vez, de tanto ser queimado, o boi também adquiriu uma certa imunidade. Hoje, fabricado especialmente para esse fim, possui uma armação mais resistente ao calor. E em vez de um só, são quatro os brincantes que se revezam embaixo dele, enquanto dura a árdua batalha.

Uma vantagem do boi vianense é que o modelo utilizado na Baixada é mais corpulento do que o protótipo adotado em São Luís ou outras regiões do Estado. Esse detalhe favorece maior proteção, na hora do fogaréu, para quem o leva nas costas. Embora continue entrando na zona de fogo previamente encharcado, o boi também conta, atualmente, com a benevolência de seus algozes. Além de lhe permitirem novos banhos de balde no meio do percurso, em determinados momentos entra em cena um secretário para abanar sua face com uma toalha, evitando assim que a fumaça o sufoque completamente.

José Ribamar Vieira (59 anos), o popular Catarrinho, é um dos heróis e principais incentivadores da festa. Encarregado de encomendar a munição de fogos aos fabricantes, ele ainda dança debaixo do boi há vários anos. Apesar das queimaduras inevitáveis do ofício, diz ter o maior prazer em participar do folguedo: “É um costume muito antigo. Meu avô, Raimundo Paixão, era patrão do boi e não perdia a brincadeira. Recebo cem reais pelo trabalho, mas faço tudo de graça se preciso for, para que essa tradição não desapareça nunca do nosso São João”- afirma entusiasmado.

A julgar pelo crescente número de adeptos da folia junina em Viana, nos últimos anos, Catarrinho pode ficar despreocupado. Em 2003, incluindo as caravanas vindas dos municípios vizinhos, estimou-se a presença de 5.000 brincantes e foram queimadas duzentas dúzias de carretilhas. Para este ano, os organizadores já encomendaram quinhentas dúzias. A farra de passar fogo no boi, no próximo dia 28, portanto, promete esquentar!

*Luiz Alexandre Raposo ( Presidente da Academia Vianense de Letras)

Publicado no jornal “O Estado do Maranhão” (Caderno Alternativo), edição de 16.06.2004.

Justiça determina afastamento de vereadores de Vitória do Mearim após investigação sobre corrupção

Ao todo, oito vereadores da cidade do interior do Maranhão foram afastados de suas funções até que o processo seja concluído. Um dos vereadores foi preso de novo outro crime.

Investigação da Polícia Civil e do Ministério Público em Vitória do Mearim já chegou à Justiça — Foto: Divulgação

Por decisão das Justiça, oito vereadores de Vitória do Mearim foram afastados de seus cargos com suspensão da remuneração e posso imediata dos suplentes até o término do processo. A ação judicial é repercussão da investigação sobre crimes de associação criminosa e corrupção na Câmara de Vereadores referente a pedidos de propina para arquivamento de CPI contra a prefeita Dídima Maria Coêlho, com base em supostos crimes de responsabilidade.

A investigação da Polícia Civil e Ministério Público culminou com a prisão preventiva de vereadores no início do mês de junho. Eles foram liberados dez dias depois, mas agora o vereador Oziel foi preso novamente por outros crimes descobertos durante a investigação policial.

“O crime de comércio ilegal de arma de fogo foi descoberto durante esta investigação e a Justiça decretou a prisão preventiva do vereador Oziel por mais este crime”, disse o delegado Guilherme Campelo.

Oziel Gomes da Silva foi preso nessa quinta-feira (27) e já voltou ao Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. Além dele, os outros vereadores afastados por ordem da justiça foram George Maciel da Paz, que era o presidente da Câmara, Hélio Wagner Rodrigues Silva, Marcelo Silva Brito (Marcelo da Colônia), Mauro Rogério (Nego Mauro), José Mourão Martins e Raimundo Nonato Costa da Silva (Nonato do Chelo) e Benoa Marcos Rodrigues Pacheco (Bena).

Investigação

A operação foi deflagrada no dia 5 de junho, quando os vereadores de Vitória do Mearim foram presos depois de uma investigação policial referente a crimes de corrupção por pedidos de propina para arquivamento de CPI contra a prefeita da cidade, segundo a apuração da Superintendência Estadual de Combate a Corrupção e Organizações Criminosas (Seccor) e o Ministério Público do Maranhão.

Segundo a investigação, vereadores do município pediram propina para arquivarem uma Comissão parlamentar de Inquérito (CPI) contra a prefeita do município, Dídima Maria Coêlho. Os vereadores teriam pedido a propina ao marido da prefeita, que é o chefe de gabinete, Almir Coêlho Sobrinho. A CPI teria por base o crime de responsabilidade da gestora municipal.

Segundo a Polícia Civil, as conversas foram gravadas pelo chefe de gabinete. Nos áudios, a polícia disse que os vereadores pedem R$ 320 mil, que poderia ser pagos de forma parcelada. No decorrer das investigações, a polícia descobriu que outros vereadores iniciaram novas chantagens no valor de R$ 70 mil. Teve um vereador que chegou a pedir R$ 100 mil.

Almir Coêlho Sobrinho disse em depoimento aos policiais que além da propina, ele descobriu que os vereadores pretendiam afastar Dídima Coêlho para que “a vice (Elzir Lindoso) assumisse e pudesse sacar a quantia correspondente aos royalties da mineração destinados ao município”. O valor chega a R$2,2 milhões.
Por G1 Maranhão — São Luís, MA