Desejo de ‘melhorar de vida’ que elegeu Lula move eleitor de Bolsonaro, diz Flávio Dino

Reeleito governador do Maranhão com 59% dos votos neste domingo, Flávio Dino (PCdoB) é “totalmente contra” que seu aliado, o candidato a presidente pelo PT, Fernando Haddad, escreva uma carta aos brasileiros nos moldes da que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez em 2002.

BBC News Brasil 

O documento, em que Lula assumiu compromissos na condução da economia – como, por exemplo o equilíbrio das contas públicas –, costuma ser apontado como fundamental para a primeira vitória petista, ao reduzir as resistências ao líder sindical. Para Dino, no entanto, “ninguém leu” a carta e Lula venceu porque era, naquele momento, “um sinal de expectativa de melhoria de vida”.

As propostas de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad à Presidência do Brasil

Segundo turno será ‘disputa da rejeição’

Na sua visão, esse mesmo sentimento é a principal explicação para Jair Bolsonaro (PSL) ter obtido 46% dos votos válidos no primeiro turno presidencial, ficando bem à frente de Haddad, que registrou 29%. Os dois disputarão o segundo turno dia 28.

Dino reconhece que os brasileiros de menor renda viram suas condições de vida piorar a partir do governo Dilma Rousseff (PT). Parte deles, diz, acabou “seduzida” pela proposta bolsonarista de armar a população contra os criminosos.

“É óbvio que uma coisa não tem nada a ver com a outra: arma não gera emprego, arma gera homicídio. Mas é o (discurso) que está aí nos segmentos populares, sobretudo no Sul e Sudeste. Acabaram aderindo ao Bolsonaro, na expectativa de melhorar sua vida”, analisa.

Para o governador, cujo partido está coligado ao PT e apontou Manuela d’Ávila para vice na chapa, Haddad deveria buscar aproximação com outros líderes políticos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os candidatos derrotados Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). Ele não acredita, porém, que isso será determinante para uma vitória.

O foco, defende, dever ser recuperar os votos do “povão” no embate de propostas econômicas.

“Sobretudo mostrar que, em termos da economia, ou seja, do emprego, do trabalho, da renda, Bolsonaro é um (presidente Michel) Temer piorado. Esse é o centro do debate”, resume.

Fernando Haddad é observado por outras pessoas em encontro do PT: Para Dino, campanha petista deve conquistar a população com propostas econômicas

Já sobre a cobrança de parte da sociedade para que o PT faça uma autocrítica sobre a corrupção nos governos Lula e Dilma, Dino diz que para ele é “suficiente” o fato de Haddad não ter sido envolvido “em nada de ilegal”.

O ex-prefeito de São Paulo foi denunciado em agosto pelo Ministério Público a partir da delação de Ricardo Pessoa, ex-presidente da UTC, que diz ter repassado R$ 2,6 milhões para pagamento de dívidas da campanha. Haddad nega e diz que a acusação foi uma retaliação a sua decisão de suspender uma obra da UTC com indícios de superfaturamento logo no início de sua gestão como prefeito.

Leia, AQUI, trechos da entrevista.

Com a ascensão da extrema-direita, corre-se o risco de destruição da democracia

Major Olímpio (PSL), durante debate com os candidatos ao senado no auditório da Folha – Eduardo Anizelli/ Folhapress

Maria Herminia Tavares de Almeida – FolhaOnline

A derrocada

Como pedras de papel, os votos dados no primeiro turno jogaram por terra o mecanismo político que, desde 1994, sustentou a competição eleitoral no Brasil. Ela favorecia a moderação, ensejando a convivência relativamente civilizada entre lideranças e partidos em torno daquilo que o economista Samuel Pessôa chamou de pacto social da Constituição de 1988.

A extensão do desastre é gigantesca. Ao longo de cinco anos de crise política não faltaram vozes de todos os pontos do espectro político, clamando pela renovação; agora ela finalmente ocorreu. Sua principal vítima foi a centro-direita. Lideranças do MDB que serviram a todos os governos desde a redemocratização sofreram uma derrota humilhante. O PSDB se transformou em partido nanico. Mas tampouco a esquerda escapou ilesa. O PT, apesar de levar seu candidato presidencial ao segundo turno e de manter suas posições no Nordeste, perdeu cadeiras nas duas Casas do Congresso e viu seu eleitorado encolher substancialmente.

Com honrosas exceções, a renovação política que tantos consideravam essencial à democracia chegou pelas mãos da extrema-direita, pouco comprometida com os valores, instituições e procedimentos democráticos. Ainda não sabemos se levará a cobiçada presidência, mas seu desempenho no Parlamento e nos estados já autoriza dizer que o estrago foi considerável.

A derrocada do sistema de partidos é fenômeno raro nas democracias consolidadas. Costumam ter vida longa, grande capacidade de adaptação a mudanças sociais e firmes barreiras à entrada de novos competidores. Guardadas as particularidades de cada caso, desastres assemelhados ao que estamos assistindo ocorreram na Itália durante a primeira metade dos anos 1990 e na Venezuela no final da mesma década. Nos dois casos, o repúdio eleitoral aos partidos estabelecidos foi precedido e alimentado por seu envolvimento em escândalos de corrupção.

Na Itália, a Operação Mãos Limpas trouxe à luz a extensa rede de ilícitos que conectava a máfia ao sistema de partidos dominado pela democracia cristã. A implosão do edifício partidário abriu o caminho ao populismo de direita de Berlusconi e mais recentemente da Liga Norte e do Movimento Cinco Estrelas.

Na Venezuela, tornou-se insustentável o arranjo firmado em 1958, que garantia à Democracia Cristã e  à Ação Democrática a partilha das posições de poder e das rendas do petróleo, qualquer que fosse o vencedor nas urnas. A crise produziu o chavismo, que demoliu a democracia e está destruindo o país.

Também no Brasil, a revelação de como o dinheiro sujo movia as engrenagens do sistema político foi essencial para catalisar o mal-estar gerado pela crise econômica, o cotidiano áspero da maioria da população, a exacerbação das paixões partidárias, os desacertos do governo Dilma e, ao fim e ao cabo, a mediocridade conservadora do governo Temer. A mídia fez sua parte na construção do consenso segundo o qual a corrupção é o mal maior que nos aflige, ao impedir que os governos atendam melhor as necessidades dos cidadãos.

Entretanto, não se deve culpar o investigador por revelar o crime e seu autor, nem o mensageiro pelas más notícias. A exposição pública da corrupção envolvendo empresas, siglas à caça de recursos e políticos preocupados com a reeleição ou o crescimento de seu patrimônio não teria o mesmo efeito tóxico fosse outra a atitude dos dois partidos que vertebravam o sistema político e que se desenvolveram, cada qual a seu modo, denunciando as práticas corruptas na vida pública: PT e PSDB.

Ao negar, contra todas as evidências, os malfeitos de que eram acusados, enquanto ecoavam as denúncias contra o adversário, deixaram aberto um enorme espaço no qual prosperaram a descrença nos partidos e o apelo pretensamente moralizante e antipolítico da extrema-direita. Vitoriosa na disputa pela presidência, ela poderá nos levar por caminhos semelhantes aos da Itália ou da Venezuela. Enveredando por eles, não se consegue reduzir a associação daninha entre corrupção e política, mas corre-se o risco de destruir a democracia.

No dia 28 de outubro, sejam quais forem as responsabilidades pelo desastre presente, não há neutralidade possível para os democratas.

Maria Herminia Tavares de Almeida – Professora titular aposentada de Ciência Política da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Escreve a cada 15 dias.