A volta por cima de Sebastião Xoxota

Nonato Reis*

Sebastião Xoxota andava numa tristeza de fazer dó. Completara em março último 28 anos. Do grupo de amigos inseparáveis, era o mais velho. E também o menos instruído. Fizera apenas o quarto ano primário, e ainda assim, incompleto. Podia ser classificado como um semianalfabeto que mal sabia assinar o nome e ler algumas palavras.

Das disciplinas, talvez a Matemática fosse a que se relacionava melhor. Pelo menos na parte de aritmética. Sabia cálculo mental como ninguém no Ibacazinho, e dava show durante as famosas sabatinas, sempre ocupando os primeiros lugares da turma.

Mas era só. Fora disso se achava um zero à esquerda, que além de “feio pra chuchu”, ainda fora desfavorecido da sorte, tendo que carregar nas costas “aquele troço medonho”, que lembrava a anatomia do sexo feminino. De tão parecido tinha até pelos em volta da coisa, o que só contribuía para aumentar o seu drama.

Mulher que era a melhor coisa da vida, não tinha. Só uma louca poderia se interessar por um homem, cuja sexualidade vivia sob suspeita. Já pensou, na hora de apresentar o namorado, a garota ter que nominar aquela indecência? “Este é o Sebastião Xoxota, meu namorado!”.

Tião fez uma careta de repugnância, deu uma cusparada na parede de palha e fitou a janela aberta, que oferecia uma visão magnífica do rio Maracu. Para completar a sua desventura, era um covarde, “um frouxo”, como bem lembrou Amaralinda, a mulher mais inteligente que o Ibacazinho jamais vira.

Como podia ter permitido o aterramento do Maracu, estando ele na presidência da entidade criada com a missão, justamente de salvar o rio daquela aberração?

Respirou fundo com um misto de frustração e resignação. Que podia fazer, era mesmo um nada, um homem “que não sabe honrar os ovos que carrega no saco”.

Linda tinha toda razão. Não era digno de viver naquele lugar. Melhor que fosse embora dali, tentar a vida em outro lugar, onde ninguém o reconhecesse, nem mesmo a indecência que carregava nas costas.

Onde quer que escolhesse para viver, seria outro homem: Sebastião Cidreira, lavrador e vaqueiro. Haveria de ser alguém na vida, e não essa coisa em que se transformara no Ibacazinho. Tião se perdia em divagações, quando a porta se abriu e Zuca entrou sem bater.

– Olá, Tião, desculpa entrar assim, de repente. É que trago um recado de Linda, e é coisa urgente.

– Linda? O que ela quer comigo?

– Não sei. Só mandou te chamar. Ela está lá no clube de jovens. E quer que você vá até lá imediatamente. Você sabe como são os recados de Linda.

– Não são recados, são ordens.

– Pois é. E não saio daqui sem ser contigo.

O clube de jovens funcionava na escola Celso Mendonça, anos depois denominada “João Cidreira”, construída em barro e telha pelo município, em terreno cedido pelo criador José Maria Cidreira.

Quando Zuca e Sebastião Xoxota adentraram a sala, Linda, Eugênio, Maroto, Pedro e Serafina já os aguardavam. Os dois deram “boa noite”, no que foram retribuídos pelos demais. Ainda magoado, Tião tomou logo a palavra.

– Não sei por que me chamaram aqui. Não faço mais parte do clube.

Linda o interrompeu:

– Você pediu para sair, mas o seu pedido foi negado.

Ele fez cara de surpreso.

– Como negado?

– Não podemos abrir mão da sua participação, Tião. Aliás, quero de público te pedir desculpas pela forma deselegante com que te tratei.

– Mas eu mereci.

– De fato você se omitiu. Mas é normal, talvez qualquer um de nós, naquela situação, fizesse a mesma coisa. O que importa é que você admitiu o erro.

Linda fez uma pausa e o fitou nos olhos.

– E reconheceu, antes de se encontrar comigo, o que é mais importante.

Tião baixou a cabeça em silêncio, e Linda prosseguiu.

– De modo que, para demonstrar o nosso apreço e reconhecimento pelo trabalho que você faz no grupo, resolvemos, por aclamação, entregar a você o cargo de presidente efetivo do clube de jovens. Daqui para frente, você é o nosso comandante.

Tião não acreditava no que ouvia. Aquilo não era real. Só podia ser brincadeira.

– O que é isso? Estão me gozando?

Eugênio intercedeu.

– Não, Tião. Isto é sério. Você, daqui para frente, dirige o clube, e todos estamos de acordo.

– Mas você não era o presidente?

– Disse bem: “era”. Meu mandato encerrou em abril. De lá para cá ficou esse vácuo. De forma que daqui para frente, você é o presidente, e Zuca permanece como secretária. Esperamos que não nos decepcionem.

Tião não sabia o que fazer, e Linda principiou uma salva de palmas, sendo seguida pelos demais. Então ele pensou na imprevisibilidade da vida, que alterna momentos bons e ruins, tristezas e alegrias, tudo “num piscar de olhos”.

Minutos atrás era um homem atormentado pela dor e decepção. Agora, alguém feliz e orgulhoso de si mesmo. Que viessem o clube e todos os desafios decorrentes do cargo, talvez nem soubesse como enfrentá-los, porém jamais repetiria o pecado da omissão.

Jornalista/Escritor

Capítulo 9 da segunda parte do romance “A saga de Amaralinda”, previsto para o início de 2019.