Investimentos concretos do Governo do Estado vêm promovendo o desenvolvimento do setor agropecuário

 

As Unidades de Referência Produtiva disseminarão conhecimentos e tecnologias para as regiões dos agropolos. Foto: Divulgação

Investimentos concretos do Governo do Estado vêm promovendo o desenvolvimento do setor agropecuário, o crescimento das produções e o aprimoramento da mão de obra do campo. São projetos com foco no produtor, nas culturas e nos negócios do setor, em geral. Nesta linha, se destacam o Agropolos, Mais Emprego, Mais Produção, Juros Zero e demais ações para diminuir a tributação sobre este segmento.

“São incentivos como a criação de programas, garantia de recursos e insumos que contribuem para melhores condições de trabalho e de vida dos pequenos produtores, além de possibilitar a inclusão destas culturas na rota comercial”, enfatiza o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Pesca (Sagrima), Márcio Honaiser.

Um dos mais significativos programas estaduais para a agropecuária, o Agropolos apoia a produção de pescados como a tilápia, tambaqui e tambatinga, além de hortaliças. É executado em parceria com produtores, sindicatos, instituições financeiras, de ensino e pesquisa com foco no aumento da produção, divulgação de novas tecnologias e diminuição das importações de alimentos.

A produção é destinada à merenda escolar da rede estadual, distribuição gratuita à pessoas em vulnerabilidade e comércio a preços mais acessíveis ao consumidor. É desenvolvido nas comunidades produtores da Ilha, Rio Balsas e Rio Tocantins, nas cadeias de aquicultura, leite, carne e couro e hortifruticultura e soma 725 propriedades e mais de 80 capacitações já realizadas, além da distribuição de máquinas e insumos.

O Mais Produção é outra ação de fortalecimento da agropecuária local e agrega 10 cadeias produtivas prioritárias (feijão, arroz, mandioca, carne e couro, ovinocaprinocultura, leite, avicultura – caipira e industrial, piscicultura, hortifruticultura e mel) com mais de 170 ações definidas. Mais de 5,3 mil propriedades em 111 municípios são beneficiadas nesta primeira etapa.

Estas e outras iniciativas de impulso ao setor agropecuário maranhense serão apresentadas durante a 60ª edição da Exposição Agropecuária do Maranhão (Expoema). O evento é uma das maiores vitrines do setor do estado e se realiza de 14 a 21 deste mês, no Parque Independência.

Mais Emprego

Na primeira etapa, o Mais Empregos ofereceu incentivos fiscais às empresas de grande porte, com isenção de R$ 500 sobre o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), a cada novo emprego gerado. Mais de 30 empresas aderiram, gerando 500 empregos na capital e no interior do Maranhão. Para as pequenas empresas, o valor é depositado na conta do empreendimento, após comprovada a contratação.

“É uma ação de amplo investimento nas cadeias produtivas, fundamental para o desenvolvimento do estado com ações cooperadas entre as secretarias. Desenvolver a produção é um dos principais caminhos para o crescimento do nosso estado”, pontua o secretário do Trabalho e Economia Solidária, Julião Amin. A ação é voltada para micros e pequenas empresas.

Juros Zero

Para os microempreendedores foi facilitado o acesso a empréstimo financeiro, sem pagar qualquer valor a mais com o Juros Zero, que pode conceder até R$ 20 mil. A cada pagamento das parcelas dentro do prazo, os juros são imediatamente devolvidos.

“É uma iniciativa de estímulo a esse segmento para permanência das atividades. Com esse apoio, os empreendedores terão mais confiança para realizar investimentos”, avaliou o secretário de Estadual de Governo (Segov), Antônio Nunes. São esperadas aproximadamente 18,5 mil operações de crédito a serem realizadas pelo programa.

Menos Impostos

No conjunto de medidas tributárias decretadas pelo governador Flávio Dino para apoiar este setor, um total de seis decretos e leis foram editados nesse sentido. Dentre estas, a que prorroga por mais 10 anos o ‘crédito presumido’ – benefício fiscal para itens das indústrias de esmagamento e processamento de grãos. As empresas que se instalarem no Maranhão serão isentas do Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na venda de seus produtos.

A cadeia produtiva da avicultura foi beneficiada com lei que propõe redução em até 90% sobre a venda de ovos, aves e subprodutos industrializados, podendo chegar à isenção para empresa agroindustrial que atuar nesta cadeia produtiva. Diminuiu de 12% para 2% o ICMS sobre a produção de soja, milho, milheto e sorgo, principais grãos produzidos no estado. Outro benefício é a possibilidade da venda sem atravessadores.

“São medidas de grande importância por estabelecer as condições tributárias com fins a simplificar os trâmites. E, ainda, promover o desenvolvimento com sustentabilidade aos negócios da economia familiar rural”, pontua o secretário de Estado de Fazenda (Sefaz), Marcellus Ribeiro.

Velório, um ritual de dor e de pinga

Nonato Reis*

No nordeste brasileiro, e em especial nas cidades do interior maranhense, o velório constituía uma celebração que, além de cânticos e orações para encomendar aos céus a alma do morto, oferecia comilança e muito grogue.

Daí nascera a expressão “beber o defunto”, um ritual fúnebre de origem africana, próprio da Umbanda. Em diversos países do continente negro, parentes e amigos do morto faziam uma lauta refeição e tomavam o tradicional marufo, espécie de cachaça típica de Angola.

Em Viana, no tempo da luz de querosene, chamava-se “sentinela”, e ao ambiente pesado de dor e de lamúrias acrescia-se um componente de diversão, que beirava à vadiagem. Eu via aquilo como um teatro, no sentido genuíno e também corrompido do termo. Na sala em que o morto era velado, dava-se a cena religiosa. Ali as pessoas mantinham um ar contrito e choravam, para demonstrar o quanto o finado era querido. Não raro, as lágrimas beiravam à histeria e alguns até desmaiavam.

Para além do ambiente fúnebre, geralmente no terreiro da casa eram armadas as mesas de jogos (baralho, dominó, dama), onde se concentrava o grosso do público, que comparecia ao recinto com a desculpa de se despedir do morto, mas o objetivo mesmo era se divertir e falar mal da vida alheia.

Velório bom tinha que ter contadores de causos, como Zé Branquinho, que passava a noite inteira desfilando estórias do arco da velha, para o delírio da numerosa plateia formada ao redor dele.

Eu não perdia velórios. Não por que tivesse, necessariamente, vínculos afetivos com o morto, mas pelo prazer de encontrar os amigos, tomar birita e até, com alguma sorte, namorar ou mesmo engatar um “casinho” para passar a noite.

Lembro-me até hoje de uma sentinela, na Palmela, do sogro de um primo meu, que ocorreu numa noite de chuva torrencial. Era tanta chuva, mas tanta chuva, que ninguém se atreveu a prestar “a última homenagem ao falecido”, exceto eu e os familiares mais chegados, entre eles uma menina muito bonita, dona de um belo colo e de coxas roliças.

Lá pela meia-noite, chuva de doer, todo mundo num clima só de tristeza, a menina me convidou para jogar dominó no terraço da casa. Eu topei na hora, já prevendo o desfecho da história.

Até tentei me concentrar nas pedras, mas o meu olhar disperso só conseguia fitar o decote do vestido dela. Cansada de ganhar e adivinhando a minha intenção, desistiu do jogo e conduziu-me a mão àquele ponto cobiçado, entre as ondulações. Daí para a frente rezei muito, não para a alma do morto, mas para que a noite não se findasse jamais.

Algumas vezes o excesso de álcool acabava por criar um clima de constrangimento e até situações caóticas. Como o caso de uma senhora obesa, moradora do lugar chamado Telhas, cujo enterro se deu debaixo d’água, no sentido lato e figurado do termo. O céu se desmanchava em água e a cachaça corria de boca em boca no gargalo do litro. Debaixo do temporal, e já com o cheiro de matéria em decomposição a exalar pelo ambiente, decidiram fazer o descarte da morta. Só que o caixão de tão largo não conseguia entrar na cova. Tiveram que aumentar o diâmetro do buraco, mas a morta parecia não querer ser enterrada.

Na tentativa de empurrar o caixão para dentro, este bateu com força no fundo do buraco, arrebentou e o defunto estourou. Foi uma agonia danada, com gente correndo para todos os lados, tratando de escapar daquele ambiente tétrico. A custo os coveiros, encharcados de pinga e de chuva, conseguiram tapar o buraco, em meio à terra enlameada e o mau cheiro terrível.

Zé de Aniceto não perdia sentinelas por nada. Era um típico frequentador de velório, bom de pinga e de lábia. Às vezes até o convidavam para, na despedia do morto, dizer algumas palavras, ao que ele, aos tombos, a voz enrolada, atendia de bom agrado. No discurso de improviso, exortava as qualidades do morto, tanto as que possuíra, como as que agradariam aos familiares entregues à orfandade.

Aconteceu que um belo dia morrera um sujeito que em vida fora a personificação da bigamia. Sua fama de mulherengo se estendia por léguas de distância, num perímetro que contemplava do Ibacazinho à Itans e ao Mocambira. Diziam as más e também as boas línguas que chegara a deitar com mais de 100 mulheres, entre donzelas, casadas e raparigas (em Viana essa palavra designava prostitutas). Mesmo assim, casara de papel passado. Dona Dolores, a escolhida, deu à luz dez filhos varões, e dizia nada ter do que reclamar do trato conjugal, atribuindo a fama negativa do marido aos invejosos. Como chefe de família que se preza, conviveu com ela debaixo do mesmo teto até os últimos dias de vida.

Zé de Aniceto chegou para a cerimônia fúnebre, quando o padre já entoava o cântico final. Aos trambolhões, a voz arrastada e uma garrafa de cana numa das mãos, pediu passagem, como se fosse alguém importante, e subiu em uma cadeira, que teve de ser escorada para não desabar junto com ele. Então iniciou a falação de desagravo ao morto.

– Este homem foi um injustiçado. Dizem por aí que deitou com muita puta e donzela, mulher casada também. Mas é mentira. Mentira das grossas. E aí está a viúva, pobre coitada em prantos, para atestar o que digo. Este homem, por conta das injúrias e da retidão de caráter, vai adentrar o reino da glória e sentar ao lado de pai celestial. É um santo!!”.

Nisso o corpo de Zé de Aniceto tombou para frente e ele desabou com garrafa e tudo em cima do caixão que, não resistindo ao baque, rolou para o chão com o defunto por cima do bêbado. Foi um alarido dos diabos; gente tentando ganhar o mato, para fugir dali. Outros procuravam, em vão, resgatar o morto das costas de Zé de Aniceto, que berrava apavorado. “Tirem este filho da puta de cima de mim, que ele já comeu mais de 100 e vai acabar comendo o meu (…) também”.

*Jornalista