A velha e a rede estragada

Ilustrativa

Nonato Reis*

Uma máxima forjada no Igarapé do Engenho diz que “amor de rede é amor que mata a sede”. Para os ribeirinhos do tempo da lamparina, em que cama era artigo de luxo ou supérfluo, o amor feito na rede não tinha paralelo. Sobrepunha-se a qualquer outro palco para o sexo. A grande maioria, senão a totalidade, dos habitantes do Ibacazinho foi gerada a partir do balanço ondular de uma bela rede de algodão. Eu mesmo e minhas irmãs viemos ao mundo com o auxílio indispensável dos fios de seda.

Porém amar na rede não é para qualquer um. Mais do que habilidade requer técnica, e isso eu achei que aprendera ainda menino, quando induzido a experimentar os prazeres da carne.

“Isso é como navegar em mar de maresia”, costumava filosofar Benedito Gambar, o Biné, meu parceiro de vadiagem nos bons tempos do Ibacazinho. Biné era craque na arte de amar na rede. Dizia-se capaz de copular à vista de todos e ainda assim passar despercebido. “Você encosta na parceira por trás, como quem não quer nada, dar um impulso inicial e deixa que a rede faça a sua parte. É tiro e queda!”. Ríamos.

Treinado e especializado no ofício, Biné, porém, não tinha traquejo para conduzir a dama até o “matadouro”. Era agoniado. Não sabia ajustar o seu tempo com o da mulher. Mal conhecia uma menina, já queria chegar às vias de fato. “Biné, mulher não é cabrita, que você dá um tapinha no traseiro e ela obedece. Mulher tem seus rituais, que são diferentes dos nossos”, eu procurava aconselhá-lo. Em vão.

Num carnaval em Viana, Biné conseguiu convencer Mariana – uma garota linda de olhos verdes e corpo perfeito – a aceitá-lo como namorado. Eu fiquei me roendo de inveja, interessado que estava por ela. Mas fazer o quê, ficara omisso, não dissera nada, e mudo não se sabe o que quer. Biné tomou a inciativa e se deu bem. Resignei-me. Na terça-feira de carnaval, o Cinelândia – clube popular de Viana – estava lotado. Era tanta gente que não cabia dentro do salão e uma multidão se formava na entrada.

Mariana conseguira entrar, junto com outras amigas. Eu observava o movimento a distância, já fazendo planos para procurar outro clube, quando Biné tocou o meu braço, tropeçando nas pernas, pelo efeito do álcool. Avisou-me que naquela noite levaria Mariana à rede. “De hoje não passa e vou dizer isso a ela agora mesmo”. Eu ponderei. “Vai com calma. Essas coisas não se resolvem assim. Você tem que criar um clima, saber se ela está a fim”. Inútil.

Biné parecia um touro enfurecido, pronto para atacar. Abriu caminho na multidão e, entre berros e empurrões, entrou no clube.

Não demorou meia hora, Mariana saiu e, passos apressados, desceu a rua Coronel Campelo, na direção da Praça da Matriz. Eu a abordei.

– Aonde você vai com essa pressa?

– Vou embora, não quero mais saber de festa. Teu amigo é um louco, um animal!

– O que ele fez?

– Me convidou para trepar.

– E você?

– Dei um tapa na cara dele e mandei-o trepar com a mãe dele.

Eu a acompanhei até a casa da tia dela, na rua Dom Helvécio, disse-lhe que também não queria mais saber de festa, o clube estava apinhado de gente, o melhor que tinha a fazer era voltar para o Ibacazinho. “Mas agora? De madrugada? Você não tem medo?”. Disse-lhe que sim, mas não me restava outra alternativa. “Por que você não dorme aqui e deixa para voltar para casa amanhã cedo?”.

Eu relutei. “Você acha que não tem problema?”. Ela sorriu. “O problema é minha tia, que não iria gostar de te ver aqui, mas se você entrar em silêncio, ela nem vai perceber”. Eu gostei do cheiro de transgressão no ar e decidi ficar.

Caminhamos até o quarto em ponta de pé, a velha dormia numa varanda contígua, que dava acesso à cozinha. Mariana armou uma rede e sussurrou-me ao ouvido. “Só tem esta rede. Você se incomoda em dormir junto?” Nem respondi. Ali ficamos inertes, como quem teme ser flagrado em um crime.

Não demorou, os corpos já relaxados foram se procurando, se ajustando e se encaixando. Uma “mão boba” aqui, outra ali, um carinho acolá, e pimba! Só que, no inusitado da situação, esqueci-me dos conselhos do Biné. “Isso é como mar de maresia. Você tem que seguir o balanço das ondas, não pode ir em sentido contrário”.

De repente houve um ruído estridente, seguido de um baque surdo e nos estatelamos no chão, a rede rasgada de cima a baixo. A luz se acendeu e vi surgir o rosto perplexo da velha, que parecia um fantasma. “Que catrevagem é essa na minha rede?”.

*Jornalista