O que é verdade?

 

Eloy Melonio *

Se alguém tentar responder essa pergunta, poderá incorrer numa clássica mentira. A razão para isso é que, em muitos casos, a verdade depende de um contexto histórico ou de uma referência confiável, ou ― quem sabe ― de base científica. Definir, como fazem os dicionários, talvez seja bem mais fácil do que explicar.

Até o nascimento da Ciência Moderna, no século XVI, por exemplo, a Terra era tida como o centro do universo. Não é mais. Em fins do século XIX, o francês Louis Pasteur desmistificou a crença na forma como as doenças se propagavam. E com isso, entraram em cena as bactérias. Quase na mesma época, Charles Darwin apresentava uma teoria com outra versão para a existência e evolução do homem. Mas nesse terreno movediço, ciência e religião continuam com a sua respectiva verdade.

E assim parece inacreditável que, numa época em que a ciência já atingiu um alto nível de desenvolvimento, e a informação torna-se cada vez mais acessível, a mentira ainda tenha espaço privilegiado no seio da sociedade. Ou melhor, não exatamente a mentira, que é coisa do passado. O que há de mais moderno agora é a “pós-verdade”, verbete que inclusive foi eleito a “palavra do ano”, em 2016, pelo Oxford Dictionary.

E então, pergunta-se agora: “O que é a verdade?”

Essa pergunta foi feita a Jesus por Pilatos (João 18.38) diante de um júri popular. É que, antes, Jesus havia-lhe dito: “vim ao mundo a fim de dar testemunho da verdade”. Mas a conversa não evoluiu, e Pilatos ficou sem uma resposta. Sabe-se, no entanto, que a verdade era parte constante no discurso do Messias pelo uso recorrente da expressão “em verdade, em verdade, vos digo”.

Mas… e essa tal “pós-verdade”?

Em uso há cerca de uma década, o neologismo “pós-verdade” impõe-se, especialmente em publicações noticiosas, como termo necessário. Os usuários das redes sociais já lidam com ele com certa intimidade. E os dicionários o definem como “situação em que os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais”.

Compartilhando um post no Facebook, alguém disse assim: “Li agora mesmo e me sensibilizei por ser a mais pura verdade”. Fica claro que, para essa pessoa, a “aparente verdade” é mais importante do que “a própria verdade”. Aparente porque não há nenhuma preocupação em identificar a fonte e/ou a sua fundamentação. Mesmo assim, com suas emoções afetadas, ela dispõe-se a “repassar” a informação aos amigos. É isso o que, no fundo, realmente importa. E com isso, tenta mostrar-se “antenada”, ligada, repassando notícias de toda espécie.

Comenta-se abertamente que o mundo político e a mídia usam e abusam da “pós-verdade” para difundir ou defender seus interesses. Discute-se o que está por trás dos “ataques ao jornalismo tradicional” e o que faz surgir “a indústria das notícias falsas”. Dessa forma, essa palavra, apesar de “nova”, já é tema de artigos e fóruns. A ANER (Associação Nacional de Editores de Revistas) realizou no dia 4 de abril, em São Paulo, um fórum sob o tema O PAPEL DA MÍDIA BRASILEIRA NA ERA DA PÓS-VERDADE.

É nesse mesmo palco, por onde desfilam verdades e mentiras, que também nascem as idéias para enfrentar a falsa verdade. Tim Berners-Lee, o inventor da Internet, ao destacar “as 3 maiores ameaças na rede”, elenca como sua segunda preocupação a “propagação de notícias falsas” (Veja, coluna SobeDesce, 22-3-2017). E, de notícia em notícia, a “pós-verdade” avança como poderoso instrumento na disseminação de inverdades para conjurar ecos vibrantes de interesses escusos.

Com a crise provocada pela operação da Polícia Federal, apelidada de Carne Fraca, um grande frigorífico nacional recrutou seus 100 mil empregados para defender, num comunicado na imprensa, a sua reputação: “(…) as palavras que sempre nos guiaram em toda a nossa história: a verdade, o respeito, a qualidade e a transparência” (itálico meu). A AMBEV também se apressou em desmentir “notícias falsas” de que pombos eram triturados por máquinas numa de suas fábricas. Em anúncio em Veja (5-4-2017), aproveitando o Dia da Mentira (1o de abril), a cervejaria revela sua preocupação em “estabelecer a verdade e acabar de uma vez por todas com o desrespeito à nossa qualidade”.

O mundo muda a todo instante, e muita discussão ainda virá nessa onda da “pós-verdade”.  Não se sabe ainda quando a sociedade será capaz de “traçar uma linha entre fatos e boatos (ou mentiras)”. Ou até quando as pessoas vão acreditar e disseminar “notícias claramente falsas”. Ou mesmo quais os males que advirão de “uma sociedade que acredita em mentiras”. Talvez um manifesto resultante do fórum da ANER (citações neste parágrafo) nos sopre alguma luz, para o bem geral da sociedade.

Enquanto isso, em algum lugar deste planeta, neste exato momento, alguém se prepara para repassar um vídeo que acaba de receber (via WhatsApp), no qual um homem “tira uma barata de dentro de uma lata de sardinha”. Vale ressaltar que esse homem não se identifica, não mostra o rosto, e não diz onde ou quando comprou o produto.

Pobre verdade, doce mentira: quem se candidata a defender uma ou outra?

* Eloy Melonio é professor de inglês, escritor, poeta e compositor.